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PERFIL SÓCIO-ECONÔMICO DOS CONSUMIDORES DE PRODUTOS ORGÂNICOS DA CIDADE DE SÃO PAULO*

 

Autores: Ricardo Cerveira:Engenheiro Agrônomo formado pela Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” da Universidade de São Paulo. Atualmente está realizando curso de pós-graduação no Departamento de Geografia da FFLCH/USP.

             Manoel Cabral de Castro:Professor Doutor da ESALQ/USP, com pós-doutoramento na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, de Paris. 

 

 

Introdução
Resultados Observados
Principais Conclusões

 

INTRODUÇÃO

Procura-se estabelecer, neste artigo, um perfil do consumidor de produtos orgânicos do Estado de São Paulo. Este sistema de produção agrícola vem crescendo a cada ano, mas, ainda, necessita de trabalhos de pesquisa que o esclareçam. Conceitualmente, a Agricultura Orgânica promove uma produção agrícola que procura minimizar o impacto ambiental dessa atividade agrícola graças à eliminação dos agrotóxicos e de quaisquer adubos minerais de alta solubilidade. Além disso, recorre ao manejo das culturas a fim de atingir a otimização da produção. Trata-se, assim, de produzir alimentos de alta qualidade sem qualquer resíduo tóxico, com maior qualidade nutricional e biológica. Essa proposta apoia-se num pensamento que se pauta por princípios inerentes ao chamado paradigma da sustentabilidade, ou seja, por critérios definidos em termos do ambientalmente correto, do socialmente justo e do economicamente viável. Ao procurar levar em conta os parâmetros que caracterizam esse sistema produtivo este trabalho coloca-se entre os que tentam, a partir de uma sucinta análise básica sobre a agricultura orgânica, caracterizar o perfil sócio-econômico dos consumidores de produtos orgânicos na cidade de São Paulo com base numa pesquisa empírica.

 

Dentre as questões mais comuns que se levantam nesse campo, encontram-se indagações do tipo: Quem participa da cadeia final desses produtos? Quem é esse consumidor? O que ele deseja e quais são suas características fundamentais? As respostas a tais perguntas fornecem dados fundamentais tanto para se conhecer e dimensionar a importância desse segmento de consumo quanto para se orientar a produção de produtos orgânicos e melhorar sua comercialização.

 

Para responder tais indagações, recorre-se a uma pesquisa na Feira de Produtos Orgânicos do Parque da Água Branca, da Associação de Agricultura Orgânica de São Paulo e que é realizado duas vezes por semana nesse parque situado na zona oeste da cidade de São Paulo. O motivo desta escolha é que esta feira é a mais antiga do estado de São Paulo e tem um público consumidor bem definido. A feira foi inaugurada em 1990.

 

A coleta de dados desta pesquisa foi realizada na Feira de Produtos Orgânicos, situada na cidade de São Paulo, no bairro de Perdizes, na zona oeste desta capital. A feira localiza-se num barracão no Parque da Água Branca. Foi inaugurada em 1990 com apenas cinco produtores. Atualmente conta com mais de quinze produtores, sendo que o local já não comporta novas barracas de venda. A feira realiza-se aos sábados e às terças-feiras, sendo feita pelos próprios agricultores, sem intermediários. Esses agricultores, necessariamente, têm que estar associados à Associação de Agricultura Orgânica.

 

A coleta de dados foi feita de março a junho de 1998, através de um roteiro de entrevistas. As aplicações desse instrumento procuraram cobrir todo o período da feira (das 5:30h às 12:00h). Os consumidores foram escolhidos aleatoriamente de modo a garantir a representatividade da amostra.

 

Como, semanalmente, estima-se que a feira recebe cerca de 600 consumidores conforme dados fornecidos pela Associação, foi escolhida uma amostra de aproximadamente 20% desta população, de modo a garantir a referida representabilidade da amostra (ASSIS, 1993). No total, esta foi fixada em cento e vinte consumidores.

Na contagem final foram realizadas cento e vinte e uma entrevistas, divididas em quatro visitas à feira, uma em cada mês do período de pesquisa fixado. Em cada visita foram realizados trinta enquetes, com exceção da primeira, em que foram entrevistados trinta e um consumidores.

 

RESULTADOS OBSERVADOS

Trata-se agora levantar o perfil do consumidor de produtos orgânicos. As variáveis selecionadas foram: profissão, escolaridade, renda, participação em organizações da sociedade civil e hábito alimentar.

 

Inicialmente foi colhida informação sobre a profissão do entrevistado. As profissões citadas foram classificadas de acordo com as atividades envolvidas nas mesmas em conformidade com a proposta de GOLVEIA (1969). Assim, dividem-se as profissões em sete categorias hierarquizadas por seu nível de prestígio social . São elas:

Altos cargos políticos a administrativos. Proprietário de grandes empresas e assemelhados

Profissões liberais e equivalente. Cargos de gerência ou direção de empresas. Proprietário de empresas de porte médio.

Posições mais baixas se supervisão ou inspeção de ocupações não manuais. Proprietários de pequenos estabelecimentos comerciais, industriais, agropecuário, etc.

Ocupações não manuais de rotina e assemelhadas

Supervisão de trabalho manual

Ocupações manuais especializadas

Ocupações manuais semi-especializadas ou não especializadas

 

Com base nesta hierarquia ocupacional, observa-se no Gráfico 1 a distribuição dos entrevistados da amostra. Constata-se, então, que a categoria de profissional que mais frequenta a feira é a dos profissionais liberais e equivalentes. Neste sentido, o exame dos dados revela que a grande maioria de consumidores, com 49% das respostas, é composta de profissionais liberais como médicos, dentistas, advogados e outras categorias desse segmento profissional.

 

Gráfico 1: Categoria profissional

 

O Gráfico 2 retrata o local de nascimento dos entrevistados, se no campo ou na cidade. Segundo este Gráfico, observa-se que a maioria deles - 76% - procede da zona urbana: 76% dos indivíduos pesquisados afirmaram ter nascido em cidades e apenas 24% deles vieram de zonas rurais. Num país de intensa migração rural-urbana em período recente, esta é uma característica diferenciadora do consumidor de produtos orgânicos: São indivíduos em sua grande maioria e – outra de suas peculiaridade – são pessoas nascidas em cidades de porte médio e grande.

 

Gráfico 2: Local de nascimento

 

No Gráfico 3, apresenta-se a distribuição da amostra por faixa etária. Ao examinar-se o Gráfico, verifica-se uma predominância de indivíduos entre 31 aos 50 anos de idade. Donde se conclui tratar-se de pessoas de meia idade.

 

Gráfico 3: Faixa etária dos entrevistados

 

No Gráfico 4, abaixo, colhe-se mais uma característica dos entrevistados: sua distribuição por sexo. Nota-se que as mulheres são as maiores consumidoras destes produtos, constituindo as principais clientes deste tipo de produto.

 

Gráfico 4: Distribuição por sexo

   

Quanto ao estado civil dos consumidores, observa-se pelo Gráfico 5 que a maioria deles é casada alcançando esse grupo de entrevistados um percentual de 60% da amostra. Já os solteiros representam aproximadamente 30%.

 

Gráfico 5: Estado Civil dos consumidores

 

O Gráfico 6 retrata o nível de participação dos entrevistados em associações e organizações da sociedade civil. Contrariamente a expectativa que se poderia ter sobre os consumidores de produtos orgânicos como pessoas diferenciadas em termos de seu nível de conscientização e participação ativa na vida social, redundo tudo isto num envolvimento nas mencionadas organizações, o resultado foi decepcionante: apenas 13% deles têm esse tipo de participação. Por sua vez, conclui-se pelo Gráfico 7 que os integrantes desse segmento vinculados a tais associações , têm uma atuação bastante diversificada, mas onde predomina a participação em associações de defesa do meio ambiente, em sindicatos e em partidos políticos.

 

Gráfico 6: Participação em organizações da sociedade civil

 

Tabela 1:

TIPOS DE ORGANIZAÇÕES EM QUE PARTICIPA
Associação de Moradores 5%
Partido Político 11%
Associação de Defesa do Meio Ambiente 5%
Sindicato 16%
Associação de Classe 16%
Outras 47%
TOTAL (n=19) 100%


Gráfico 7: Nível de escolaridade

 

Como se pode notar no gráfico 7, o consumidor de produtos orgânicos apresenta nível elevado de instrução com aproximadamente 60% deles tendo feito um curso superior. Em contrapartida, além de inexistirem analfabetos entre os entrevistados, observa-se que somente 17% deles possuem instrução de 1º grau. Indubitavelmente, esta é uma informação relevante a ser levada em conta em eventuais tentativas de aumento da demanda desses produtos. Embora parte importante conflitante desse percentual possa ser atribuída a um “efeito espacial”, uma vez que a enquete foi feita em um bairro paulistano de classe média (Perdizes), pode-se manter a hipótese de que a localização da feira não é a única responsável por esse elevado nível educacional dos entrevistados.

 

Nos Gráficos 8 distribuem-se os entrevistados por faixas de níveis de renda individual. Quando se analisa a renda individual, pode-se notar, inclusive, que, além, de fazer parte de uma elite intelectual, os entrevistados também integram uma classe de renda elevada. Com efeito, verifica-se que em termos de renda individual, a classe modal na distribuição de renda situa-se entre R$1.800,00 e R$3.600,00. É inegável dizer que se trata de estratos sociais que usufruem de elevado padrão de vida.

 

Gráfico 8: Renda individual per capita

No Gráfico 9, finalmente encontram-se dados relativos ao hábito alimentar dos entrevistados. Constata-se, aí, que o consumidor de produtos orgânicos, diferentemente do que se poderia pensar, tem um hábito alimentar diversificado, não se limitando ao consumo exclusivo desses produtos, alcançando um percentual de 80% os que afirmam assim proceder. Esse perfil de consumo fica ainda mais evidenciado quando se constata entre eles o consumo de alimentos macrobióticos e comida vegetariana. Mais interessante ainda é notar que entre os que se dizem praticar um padrão diversificado de dieta alimentar, 60% consomem carne vermelha.

 

Gráfico 9: Diversificação do hábito alimentar dos entrevistados

 

 

   

PRINCIPAIS CONCLUSÕES

Análise efetuada permite sintetizar algumas conclusões relativas ao perfil do consumidor típico de produtos orgânicos na cidade de São Paulo. Evidentemente, esse perfil refere-se a quem faz as compras na feira e não a quem de fato consome esses produtos.

1.    Esse consumidor é um profissional liberal, geralmente do sexo feminino.

2.    Nasceu na zona urbana e, em sua maioria em cidades médias e  de grandes porte, sendo pessoas de meia idade, situando-se as mesmas numa ampla faixa entre 31 e 50 anos.

3.    É predominantemente casado.

4.    Participa de ONGs ou outra organização da sociedade civil em percentual muito reduzido.

5.    Apresentam nível de instrução elevada, tendo em sua maioria cursado o ensino superior.

6.    Em termos de sua renda individual per capita e renda familiar per capita são indivíduos integrantes da classe média.

7.    Assim, tanto em termos de renda como de educação, os dados não deixam dúvida de que esse contingente de consumidores é uma elite intelectual e econômica.

8.    Finalmente, chega-se a conclusão de que os consumidores de produtos orgânicos caracterizam-se por cultivar um hábito de consumo diversificado, sendo que parte importante deles mantém-se fiel ao consumo de carne vermelha.

 

 

 

 

 

* = Este artigo é um dos produtos do Estágio Supervisionado realizado no Departamento de Economia, Administração e Sociologia da ESALQ/USP, em 1998 em parceria com a Associação de Agricultura Orgânica (VOLTAR) 


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